21 de abril de 1792. Era uma manhã de sábado. Joaquim José da Silva Xavier subiu os vinte e um degraus da grossa e forte madeira de lei da escada do patíbulo, o estrado montado para executar condenados no largo da Lampadosa – atual Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro. (106 anos depois, em 1898, em seu Diário de Notícias o jornalista Bento Aranha descrevia a forca que extinguiu o libertador mineiro: “os troncos do guindaste eram colossais e de cor vermelha. Tem diversos furos, entre eles uma gargalheira e um pedaço de algema”. Essa “preciosidade repulsiva” ficou por muito tempo em poder de um fiscal municipal carioca, de nome Deocleciano Martins.)
Tiradentes se quedou colado ao imaginário popular brasileiro como uma insígnia insurrecta, um emblema insurgente, um ícone da rebeldia nacional, um caudatário da indignação contra o despotismo colonial. Inspirado na Francesa Revolução, erigida sob a tríade liberdade, igualdade e fraternidade, o mineiro liderou uma dinâmica agitação, uma silenciosa sublevação, que foi estancada por uma traição. Dos cânions das Minas Gerais, daquelas grutas de diamantes e de gemidos errantes, sua altiva silhueta, qual uma luminosa maçaneta, abre as portas das nossas intimidades, convidando-nos a uma atemporal reflexão: até que ponto somos instrumentos de transformação ou meros artefatos de repetição?
Recordemos aqueles tempos. Oh quão pesada era a mão do fisco português!… Das casas de fundição, locais onde o ouro em pó era transformado em barras, já era recolhido o “tributo”: 20%, ou um quinto da produção. Ao aportar em terras lusitanas, os navios que carregavam os tributos oriundos do Brasil, eram saudados pelos portugueses, que exclamavam: “Lá vem a nau do quinto dos infernos!” A Derrama, esse quinto voraz sobre o ouro extraído das entranhas mineiras, devorava não só o metal precioso, mas a alma do trabalhador. Impostos sobre escravos, sobre o ar que se respirava na capitania, multiplicavam-se como pragas bíblicas. O ouro, que outrora faiscava em rios de prosperidade, agora escorria para Lisboa, deixando apenas poeira e promessas vazias. Filósofos como Rousseau, lidos em segredo pelos inconfidentes, sussurravam a injustiça: o Estado, esse Leviatã hobbesiano, ao invés de protetor, era predador. O descontentamento fermentava como vinho azedo – o povo, esmagado, sonhava com uma pátria sem derramas, onde o suor rendesse frutos próprios.
Eis que o eco da Inconfidência Mineira ressoa nos nossos dias! A carga tributária brasileira, esse monstro de mais de 33% do PIB, repete o drama colonial em trajes modernos. PIS, COFINS, IPI, ICMS e ISS, ou seus substitutos IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços) – uma teia de siglas que sufoca o arrojo empreendedor, o suado salário do operário, o pão da mesa. A “sanha arrecadatória”, como esbravejam os economistas, evoca a mesma opressão: governos inchados, promessas de serviços que evaporam como o ouro de Vila Rica. Reformas tributárias prometidas viram labirintos legislativos, enquanto o cidadão, herdeiro de Tiradentes, sente o peso do Estado não como escudo, mas como algema. É a mesma fúria filosófica: onde acaba o dever e começa a rapinagem?
Tiradentes, herói da pátria, mártir da forca e do esquartejamento, transcende o carrasco para encarnar a soberania popular. Seu legado, urdido em versos de Cecília Meireles e em debates constitucionais, questiona o equilíbrio entre Estado e liberdade. Em tempos de auditorias digitais e calotes fiscais, ele surge para nos interrogar: o poder deve servir ou subjugar? Sua barba esvoaçante, em murais de Portinari, grita por justiça tributária, por um pacto social onde o imposto não seja tirania, mas semente de popular alegria.
No atual abril, sob chaminés e fumaças, ele é muito mais que estátua em praças. É o sussurro de uma eterna verdade: a história é um rio cíclico, onde a fúria fiscal, erva daninha da maldade, renasce desafiando o jardim da humanidade. Filósofos diriam que é a dialética hegeliana: senhor e escravo numa república de banana. Para os poetas, é o drama de Ícaro na versão atual: o derretimento de quem voa perto demais do sol estatal.
Que sua chama acenda em nós o vigor da reflexão com robustas caracteres: romper ciclos exige muito mais que dentes de alferes. Exige a impulsão de um novo despertar, dedicando à terra uma outra maneira de semear. Pois, enquanto houver derramas – coloniais ou republicanas – Tiradentes cavalgará, imortal e envolto em chamas, na poeira dos nossos mais graves dramas.
Lembremos, para o nosso bem, todo santo dia: “Libertas quae sera tamen” (“Liberdade ainda que tardia”)! Que frase primorosa, para a gente sempre recordar: a Liberdade é valiosa, mesmo que demore a chegar!




