Anualmente, como uma data sagrada, o calendário nos convida para uma pausa coreografada. As vitrines se colorem, o comércio se agita e o mercado tenta, no segundo domingo após o mês de abril, colocar uma etiqueta de preço naquilo que é a própria negação da lógica mercantil. É a aurora em que solenizamos o Dia das Mães, data que produz um efeito similar ao do fermento nos pães.
Evoco mi madre, a professora Rosária, mulher de íris extraordinária. Nunca vi uma dama tão antibélica e de alma tão visceralmente evangélica. Ela é, no mastro da minha história, um generoso artefato de glória. Colou, em meu cordão umbilical, um radioso ornamento floral. A lição indelével que me deixou: é incalculável a extensão do amor. Outorgou-me a paciência de aço e, sobremaneira, a sapiência do compasso. Aos meus cinco anos de vida, me ensinou a madrugar para encarar a lida.
Com seu jeito terno, ela nunca rivalizou o trabalho externo e o labor interno. Soube perfeitamente compatibilizar esforço laboral e arte de maternar. Há um equívoco moderno que nos faz acreditar que o “trabalho” é apenas aquilo que se exerce fora das paredes do lar. É como se a doméstica ambiência, sem planilhas de resultados ou outras fosforescências, estivesse fora do catálogo das ciências. Por isso, é preciso resgatar uma necessária provocação: é dentro de casa, e não nos palácios ou bolsas de valores, que nasce a civilização.
Partindo dessa obviedade, sentimos que o mundo inverteu as prioridades. Chamamos de “trabalho” o esforço para vender coisas sem força viva, mas olhamos para a maternidade como uma espécie de “interrupção” da força produtiva. Chesterton defendia que filhos não são o que interrompe o trabalho; filhos são o trabalho. Enquanto o especialista se dedica a uma minúscula engrenagem da máquina social, a mãe é a única “generalista” que restou com a corda do cordial. A mãe é a jardineira da alma, a ministra da história, a filósofa do cotidiano, a guardiã da memória. Se o mundo sobrevive ao caos, é porque em algum lugar, no silêncio de um quarto envolto em mistério, uma mulher decidiu que educar uma criança é uma tarefa mais ambiciosa do que erguer um império.
Tão bela quanto a arte de louvar é essa liturgia de pequenas e grandes renúncias chamada maternar. É a entrega do corpo que se torna, para o outro, geografia; é o sono que se desfaz para que o sonho alheio possa ganhar fôlego e melodia; são os projetos pessoais muitas vezes deixados na antessala do dia. No entanto, inexiste aqui um tom de lamentação, mas o exercício da plenitude da doação. E ninguém pode imaginar quão profunda é a poesia do ato de se doar. A mãe é aquela que, ao perder-se no cuidado e no contemplar, encontra uma dimensão de humanidade que o mercado jamais compreenderá. Ela trabalha com matérias-primas sutis e preciosas: o tempo e o afeto, pétalas poderosas. Ela molda o caráter com a mesma paciência de um escultor: retira o excesso do mármore, revelando do homem ou da mulher a fleuma interior.
Essa força civilizatória incrível é, por natureza, invisível. Não há aplausos para a febre contida na madrugada, nem medalhas para a paciência gasta e desbastada no ensinar a diferença entre a luz certa e a trava errada. Mas é nesse ocultamento fecundo que reside a fundação do mundo. Sem a doação materna — esse “dar o que não tem preço” — a sociedade seria apenas um amontoado de indivíduos isolados, sem raízes ou bússolas morais de apreço.
Portanto, que nossa gratidão hoje não seja apenas por um afeto recebido, mas por esse supremo papel reconhecido. Àquelas que aceitaram a tarefa cósmica de construir a humanidade, tijolo por tijolo, prece por prece, a nossa mais honrosa respeitabilidade.
Elas não apenas geram a vida; elas garantem, em boa medida, que a vida valha a pena ser vivida. Obrigado por serem a brilhante pedra benta, o alicerce silencioso sobre o qual todo o resto se sustenta. As mães hão de sempre estar em primeiro plano: são elas as arquitetas do humano!




