Home Júnior Bonfim Filosofia e poesia, linguagens da alegria

Filosofia e poesia, linguagens da alegria

Urge que recuperemos a poesia e a filosofia como formas de linguagem. Ambas foram, de forma sensível, os meios pelos quais demos forma ao invisível. Hoje em dia, a linguagem técnica ganhou hegemonia. Esta explica os processos e seus elementos, mas nunca adentra à gruta dos sentimentos

Foto: Gary Barnes/Pexels

Outro dia, estive falando aos parceiros de literária artesania, com os quais reparto fraternidade de confraria, na Fortalezense Academia. O tema foi o meu itinerário… no mundo, vasto mundo literário.

As letras se incorporaram à minha identidade quando conheci o ímã da dualidade, atingido por dois raios, duas rosas, a pala e a opala, a ciosa e a preciosa: a poesia e a espiritualidade. Meu experimento primeiro ocorreu quando completei o sexto janeiro. Na primeira comunhão, senti o calor das labaredas da emoção. Vestindo uma roupa branca como a farinha, concluí que a poesia podia ser minha rainha.

Nessas últimas quadras decenais tenho me interrogado, como quem talha uma melodia, a respeito da aura que circunda a poesia. O que vem a ser esse cantante, encantado e encantador fenômeno faiscante? Parece-me que Poesia é tudo aquilo que nos torna essencialmente mais humanos, ou meninos, nos aprofunda no humanismo ao ponto de nos aproximar do divino. A poesia é, sem engano, a divinização do humano.

Nessa esteira, caríssimos ateus, o primaz e maior poeta foi Deus. Com seu sopro mágico, produziu o primeiro verso: a magnitude da natureza, a comunidade dos vivos e o desenho do universo. Por essas setas, todos somos ou podemos ser poetas. Os que desenvolvem a arte de concatenar os fonemas musicais, as obras arquitetônicas das estrofes arrebatadoras são sonoros instrumentos do Poeta original e nada mais. Foram distinguidos com a missão de apontar as trilhas de Orfeu nas alamedas do céu e na imensidão do mar. Por isso que o amazônico Thiago de Mello proclamou como quem faz uma pausa: “Não somos melhores nem piores. Somos iguais. Melhor é a nossa causa.” 

Ouso avançar por outra miragem: urge que recuperemos a poesia e a filosofia como formas de linguagem. Ambas foram, de forma sensível, os meios pelos quais demos forma ao invisível. Hoje em dia, a linguagem técnica ganhou hegemonia. Esta explica os processos e seus elementos, mas nunca adentra à gruta dos sentimentos. A técnica opera o sistema e sua ciência, mas é incapaz de interpretar a própria experiência.

Eis a indagação que agita nossa memória: o que aconteceu ao longo da história? Fomos abandonando duas formas essenciais de relação com a realidade, a poética e filosófica como linguagens de intensidade. A linguagem técnica é revestida de utilidade, mas despida de profundidade. Ela é forte na descrição, mas frágil na interpretação. Ela é boa na organização, mas carente na compreensão. Ela calcula e explica, mas não significa. Ela mede com precisão e calcula com calma, mas descura de organizar a alma.

Se só temos linguagem técnica, só conseguimos enxergar a vida tecnicamente e a vida não é técnica somente. Sem filosofia, na verdade, perdemos o instrumento de organização da realidade. Sem linguagem para pensar, o pensamento se torna raso e a luz tende a rarear. Ou seja, sem filosofia não há profundidade, sem poesia não há interioridade.

Historicamente, a filosofia sempre se alimentou da poesia. Heráclito, ao expressar sua opinião, nunca dizia que a estabilidade é uma ilusão ou que a mudança é a essência da existência. Apenas fazia da metáfora o desafio e dizia que ninguém entrava duas vezes no mesmo rio. Essa frase, prenhe de filosofia, é também pura poesia. Platão, filósofo aristocrático, escrevia em diálogos dramáticos. Aristóteles, com muito fundamento, dizia que a metáfora é o maior instrumento do pensamento. Nietsche, com suas atordoantes abordagens, redigia em aforismos e imagens. Uma metáfora contém mais reflexão do que uma demorada explicação.

Em Tabacaria, Fernando Pessoa nos brinda com um verso profundo: “Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.” Essa estrofe contém um misto de identidade e humanidade, vazio e potência, contradição e transcendência. A literatura é, pois, o processo de mais potente cura. Nela, por ela, através dela, pomos asas no imaginário e edificamos mundos com a argamassa do vocabulário.

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