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A festa à fantasia

Entrei na vida sem disfarces, disposto a pagar o preço de não parecer mais do que sou, nem menos do que posso. Não fui herói, nem mártir, apenas fui — com os pés firmes no chão e o olhar voltado para o horizonte do que é justo e bom. Prefiro os vínculos sinceros às alianças úteis, os gestos silenciosos à vaidade barulhenta

Foto: Ron Lach/Pexels

Dizem que a vida é uma festa à fantasia. Um vasto salão onde desfilam ilusões cuidadosamente moldadas, sorrisos pintados com tintas de conveniência, olhares que medem e interpretam antes de acolher. Ali, cada convidado oculta algo — um medo, uma falta, um arrependimento — como se a alma, nua, não fosse aceita sob os holofotes. Uns vestem a armadura da arrogância, outros o véu da modéstia encenada. É um teatro onde poucos têm coragem de subir ao palco com o próprio rosto.

Desde cedo, percebi esse jogo de aparências. Ainda menino, nos sertões de Mineirolândia, aprendi que a verdade tem o peso do sol do meio dia: não é para todos, mas é para os inteiros. Ali, meu pai — José Mineiro — me ensinou, não com palavras, mas com gestos, que caráter não se fantasia. E ao lado dele, minha mãe, Maria Amélia, com sua maneira reservada, firme e silenciosamente generosa, ensinou-me que a bondade verdadeira não precisa de plateia e que dignidade se revela, sobretudo, quando ninguém está olhando. Dele, aprendi a retidão; dela, a força serena do bem. E dos dois recebi talvez a herança mais preciosa: a obrigação moral de procurar ser verdadeiro comigo mesmo.

E cresci assim, sem muito apreço por máscaras. Estudei em Mineirolândia, Senador Pompeu e Pedra Branca, depois em Fortaleza, onde fui acolhido com carinho por tias que me ensinaram, no cotidiano simples e afetuoso, que dignidade é algo que se cultiva em silêncio. Mais tarde, com o rigor do Exército e o estudo do Direito, reforcei em mim a convicção de que o mais valioso dos disfarces é não usar nenhum.

Entrei na vida sem disfarces, disposto a pagar o preço de não parecer mais do que sou, nem menos do que posso. Não fui herói, nem mártir, apenas fui — com os pés firmes no chão e o olhar voltado para o horizonte do que é justo e bom. Prefiro os vínculos sinceros às alianças úteis, os gestos silenciosos à vaidade barulhenta. E se em tantos bailes me senti deslocado, foi porque meu traje era simples demais para o brilho alheio: era apenas o meu rosto.

Hoje, com os cabelos já tocados pelo tempo, posso dizer que valeu a pena. Porque ao final dessa longa festa, quando os refletores se apagarem e a música cessar, restarão apenas os que dançaram de alma limpa. E eu estarei entre eles — com o rosto que sempre foi meu, e com a paz de ter sido inteiro.

E se a festa continua, é porque novos convidados chegam.

Um deles, pequenino, atende pelo nome de Leonardo. Meu neto, hoje com dois anos e meio. Com seus passos ainda pequenos e seus intermináveis “por quês”, já aponta um caminho de curiosidade, ternura e verdade. Quando o observo descobrindo o mundo, sinto esperança. Que ele herde não os salões disfarçados, mas o gosto pelas verdades simples. Que leve adiante, sem pressa e com firmeza, a dignidade de não precisar usar máscara alguma.

E agora chegou Júlia. Minha pequena neta, com apenas dois meses de vida, quase nada sabendo do mundo e já significando tanto para o meu. Ainda não pergunta, não escolhe caminhos, não conhece máscaras nem fantasias. Apenas repousa na pureza absoluta de quem acaba de chegar. E talvez seja justamente por isso que, ao contemplá-la, eu enxergue tão claramente o futuro. Desejo que cresça forte e doce, que a delicadeza jamais lhe seja confundida com fraqueza e que encontre na verdade a sua mais bonita forma de elegância.

Leonardo e Júlia são, para mim, mais que a continuidade do sangue: são a esperança de uma continuidade de princípios. Neles, desejo reconhecer amanhã alguma coisa daqueles que vieram antes de mim — a retidão de meu pai, a bondade firme e silenciosa de minha mãe, os valores que recebi e aquilo que, entre erros e acertos, procurei preservar.

Porque talvez a melhor herança que um avô possa deixar aos seus netos não seja ensinar-lhes como vencer a festa da vida, mas mostrar-lhes que é possível atravessá-la inteira sem precisar esconder o próprio rosto.

E, se assim fizerem, quando chegar a vez deles de dançar, saberei que minha música não terminou em mim.

akam.

Kleber Mineiro

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