O erro é uma entidade subestimada. Sofre preconceito, ganha má fama, vive sendo escondido, apagado, empurrado pra baixo do tapete — e mesmo assim governa o mundo com uma elegância caótica.
Não acredita? Basta olhar ao redor. Tem erro no nascer (ninguém pediu pra vir), erro no crescer (ninguém sabe o que fazer), erro no amar (quase sempre é desentendimento com poesia), erro no dormir (insônia que o diga), erro no acordar (vide o despertador). Erramos até ao morrer — sempre parece cedo demais.
E se a gasolina aumenta? Erro. Se não aumenta? Erro mais suspeito ainda.
O erro é imparcial: visita ricos, pobres, cultos, iletrados. Mora nas cúpulas e nos porões. É democrático: erra-se em latim e em gíria. Tem PhD e também ensino fundamental incompleto. O erro, meu caro, não discrimina. Apenas se instala.
É curioso: o erro só aparece depois que tudo parece pronto. É como uma assinatura invertida da vida: vem no rodapé, mas muda o título. E quando tentamos escondê-lo, ele cresce. Porque erro abafado vira trauma; erro negado vira karma.
O acerto, coitado, vive à sombra do erro. É estático, previsível, sem emoção. O acerto é o funcionário público da existência. Já o erro? Ah, o erro é artista. Grita, improvisa, desnorteia — e no fim, ensina.
O erro é a única coisa que realmente deixa rastro. Tudo o que você é, tudo o que você sente, tudo o que aprendeu — tem cheiro de erro no fundo. O erro é pai do recomeço, mãe do amadurecimento e, às vezes, parteiro de grandes revoluções.
Há quem diga: “Deus não erra.” Verdade. Mas foi Ele mesmo quem nos criou capazes de errar — o que talvez tenha sido o seu toque mais genial. Ou o seu primeiro erro. Mas não vamos entrar nesse mérito.
O que importa é que o erro existe. E se existe, é por algum motivo divino ou, no mínimo, indispensável. Sem erro, o mundo parava. A história não girava. A arte não ousava. A alma não evoluía.
Então, da próxima vez que errar, não se torture. Apenas anote:
“Mais um passo na direção certa… do erro certo.”
Porque errar, no fim das contas, é a forma mais sincera de existir.
akam.
Por Kleber Mineiro




