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Brasil e Noruega: confronto ou encontro?

Quando o Brasil enfrenta a Noruega, é como se o Trópico dialogasse com o Ártico. É a criança que dança conversando com o sábio que medita em silêncio. E há, nesse vis-à-vis, uma lição que o futebol, em sua sabedoria, insiste em nos ensinar: nem sempre a exuberância vence a disciplina. Nem sempre a criatividade supera o método

O que é bacalhau?! – perguntei enquanto saboreava, pela vez primeira, aquele peixe de postas altas e de carne tão tenra que se desfazia facilmente em lascas. Responderam-me: é um peixe que vem das águas geladas da Noruega. Sempre me estala essa recordação quando Brasil e Noruega se defrontam ou se encontram sob o mesmo retângulo de grama.

Há algo de vigorosamente simbólico quando dois países tão distintos – quiçá, dois mundos – se postam em um mesmo campo de futebol. O Brasil e a Noruega — nações que nasceram de geografias desafiadoramente opostas, que respiram climas frontalmente contrários, que carregam histórias escritas em idiomas que jamais se tocaram — convergem por noventa minutos sob a mesma arena futebolística. E nesse encontro-confronto, como em tantos outros, revela-se não apenas o jogo, mas a própria natureza dessas duas nações.

O Brasil é o país do excesso generoso, das fontes murmurantes, das matas verdejantes, onde a Lua vem brincar. Somos um país lindo e trigueiro, terra de samba e pandeiro. Somos a exuberância tropical, a floresta que a bandeira empresta, o povo que transborda em cores, ritmos e abraços. Nossa alma é quente, expansiva, confiante — talvez até ingênua em sua esperança. Nascemos de uma simbiose tumultuada de três continentes, e dessa mistura impossível extraímos uma identidade que é, simultaneamente, caótica e harmoniosa. Somos o país que acredita que tudo é possível, que a criatividade compensa a falta de recursos, que a ginga resolve qualquer problema.

A Noruega, por sua vez, é o silêncio contemplativo das montanhas nevadas. É o país da contenção, da precisão, da ordem que não é fria, mas afetuosa. É um majestoso corpo com longos e estreitos braços de mar formados pela erosão glacial de vales, geralmente ladeados por penhascos íngremes. São os fiordes. De uma maneira especial, os fiordes noruegueses, imponentes e profundos, guardam segredos milenares; suas noites polares ensinam a paciência; seu povo aprendeu que a riqueza verdadeira não é exibição, mas sustentabilidade. A Noruega é a antítese do improviso — é planejamento, método, a certeza de que cada passo deve ser calculado antes de ser dado. Por isso, quando descobriu o petróleo, ao invés de esbanjar, a Noruega tratou de instituir o mais portentoso fundo soberano do planeta, com patrimônio superior a US$ 1,9 trilhão, que garante riqueza e pensões para suas gerações futuras.

Quando o Brasil enfrenta a Noruega, é como se o Trópico dialogasse com o Ártico. É a criança que dança conversando com o sábio que medita em silêncio. E há, nesse vis-à-vis, uma lição que o futebol, em sua sabedoria, insiste em nos ensinar: nem sempre a exuberância vence a disciplina. Nem sempre a criatividade supera o método. Às vezes, a Noruega — com sua frieza estratégica, sua defesa impenetrável, sua recusa em se deixar seduzir pela beleza do jogo — simplesmente não cede.

Porque é verdade, e essa verdade merece ser dita com a leveza que a crônica permite: a seleção brasileira nunca venceu um jogo contra a Noruega. Nunca. Nessa simples sentença habita uma ironia que visita a nossa intimidade mais impenetrável. Nós, que somos campeões do mundo, que inventamos o futebol-arte, que fizemos da bola um instrumento de poesia — nunca conseguimos quebrar essa muralha nórdica. E talvez isso nos diga algo importante: que a vida, como o futebol, nunca se resume apenas ao talento. Vai além. E esse adiante pode atender por um binômio: eficiência-resistência. A inaudita capacidade de dizer “não” quando o mundo inteiro sussurra “sim”.

A Noruega nos ensina, a cada encontro, que existem formas de estar no mundo que correm ao largo da exuberância. Aí aprendemos que a vitória pode ser silenciosa. Que a força pode ser discreta. E o Brasil, em sua generosidade de espírito, continua acreditando que da próxima vez será diferente — porque é assim que somos: seres fascinados com a beleza de sermos “eternos aprendizes”.

No fim, talvez o verdadeiro jogo não seja entre Brasil e Noruega, mas entre aquilo que cada um representa: o coração que bate acelerado e a mente que pensa com clareza. E ambos, à sua maneira, vencem sempre!

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