Enquanto o debate eleitoral se concentra na disputa pela Presidência da República e pelos governos estaduais, a eleição mais valiosa está acontecendo longe dos holofotes.
Hoje, um único deputado federal representa cerca de R$ 167 milhões em recursos públicos e poder político ao longo de um mandato. A conta reúne aproximadamente R$ 37 milhões por ano em emendas parlamentares, além da participação nos recursos do Fundo Partidário e do Fundo Eleitoral.
Isso ajuda a explicar por que os presidentes dos partidos passaram a exercer um poder tão grande na política brasileira.
A eleição para a Câmara deixou de ser uma disputa por representação e se tornou também uma disputa bilionária por orçamento e influência. É justamente por isso que dirigentes como Valdemar Costa Neto, presidente do PL, e Gilberto Kassab, presidente do PSD, ocupam um espaço tão estratégico no cenário nacional.
O PL, por exemplo, possui hoje 97 deputados federais e trabalha para ultrapassar a marca de 100 parlamentares. Mantido esse tamanho, o partido passa a administrar uma estrutura que movimenta mais de R$ 4 bilhões entre emendas parlamentares e fundos públicos durante a legislatura.
Muito além de eleger um presidente da República, o objetivo político é o de construir uma maioria capaz de controlar recursos, fortalecer o partido e garantir vantagem nas eleições seguintes, prolongando a permanência no poder.
Essa lógica ajuda a compreender também o que acontece no Ceará.
O esforço de Ciro Gomes para ampliar sua base, a preocupação do governador Elmano de Freitas em formar uma bancada forte e até a fala do presidente Lula, durante a convenção do PT, de que hoje um presidente governa com menos força diante de um Congresso numeroso e independente, apontam para a mesma realidade.
O centro do poder político migrou, em grande medida, para a Câmara dos Deputados.
Não por acaso, a disputa pelas vagas de deputado federal tem mobilizado tanto as lideranças estaduais quanto as nacionais. Cada cadeira conquistada representa muito mais do que um voto em Brasília.
Esse modelo tem sido alvo de questionamentos, sobretudo após a expansão das emendas parlamentares e o protagonismo assumido pelo Congresso na execução do Orçamento. O Supremo Tribunal Federal vem determinando maior transparência e controle sobre esses recursos, mas qualquer mudança estrutural depende do Congresso, que é justamente quem mais se beneficia do sistema.
Talvez essa seja a discussão mais importante da política brasileira hoje.
Enquanto o eleitor acompanha quem ocupará o Palácio do Planalto, os partidos fazem outras contas. Quantos deputados conseguirão eleger? Quantos bilhões de reais terão condições de influenciar nos próximos quatro anos?
É uma mudança silenciosa na forma de exercer o poder e que ajuda a explicar boa parte das articulações que estamos vendo nesta eleição, do Ceará a Brasília.






