A eleição acabou, mas o rescaldo continua e boa parte dele é feia. Depois da reeleição de Lula, multiplicaram-se nas redes publicações incentivando patrões a demitir funcionários por causa do voto.
No Paraná, a deputada estadual eleita Jéssica Ramos Moreno (PL) postou no domingo uma sugestão de demitir quem votasse no PT. No Rio, o MPT entrou, nesta terça, 27, com ação civil pública contra a deputada estadual Índia Armelau (PL), que incentivou empresários a demitir empregados por suas escolhas políticas.
Até segunda, 26, o MPT somava 1.937 denúncias de assédio eleitoral, 946 delas entre o primeiro e o segundo turno. Um dia depois, o balanço já chegava a 2.364.
Só que esse barulho todo esconde outras histórias.
Na mesma terça, a comunidade do Calma Urgente, responsável por produzir a série de reportagens do Revelando, lançou uma vaquinha para Cris, mãe de Ana Clara, a menina de 5 anos que morreu em 2021 atingida por um tiro de fuzil enquanto brincava com o irmão na porta de casa, numa comunidade de Niterói/RJ. O caso foi um dos divulgados pelo Revelando.
Em poucas horas, a campanha arrecadou R$ 1,5 milhão, de cerca de 15 mil doadores, segundo os organizadores. O dinheiro vai para uma casa própria para Cris e uma poupança para o irmão de Ana Clara, Pedro, além de acompanhamento psicológico para a família. O caso voltou ao debate porque Flávio Bolsonaro atuou na defesa do policial réu. Ao responder a Lula sobre o assunto, Flávio se dirigiu à mãe chamando-a pelo nome da filha morta. A resposta das pessoas veio na solidariedade.
No campo jurídico, também houve reação.
Advogados ligados ao campo petista, como José Eduardo Cardozo e Marco Aurélio Carvalho, do grupo Prerrogativas, ofereceram em manifesto atendimento gratuito a quem for perseguido por votar ou fazer campanha, independentemente da preferência eleitoral. Outros escritórios menores, como o do advogado Igor Bento e da advogada Raquel Fernandes, também passaram a anunciar nas redes defesa sem custo para quem for demitido por posição política.
E a lei está do lado do trabalhador. Quem for demitido por motivação política tem direito a voltar ao emprego ou, se preferir, receber em dobro a remuneração do período afastado.
No Ceará, o MPT-CE recebeu 46 denúncias até 20 de outubro, e a queixa mais comum foi patrão atrasando funcionário para votar. Em cidade pequena, onde o dono da loja conhece o balconista e a família dele, a pressão nem sempre vem por escrito. Por isso, vale lembrar que a denúncia pode ser feita no site mpt.mp.br, inclusive de forma anônima.
O ódio faz barulho, mas, como mostraram 15 mil pessoas numa tarde de terça, a solidariedade também viraliza.






