A disputa presidencial de 2026 ainda nem chegou às convenções, mas um dos grandes desafios da direita, a falta de unidade, já foi exposto e o Ceará se transformou no principal palco dessa divisão.
De um lado, Eduardo Girão e Michelle Bolsonaro defendem o que chamam de “direita raiz”, criticando alianças pragmáticas e o chamado “teatro de tesouras”, expressão usada por Girão para atacar acordos entre adversários históricos.
Do outro, lideranças do PL, como André Fernandes e Flávio Bolsonaro, apostam na aproximação com Ciro Gomes como estratégia para ampliar competitividade no estado. O embate deixou de ser apenas regional e passou a expor uma divergência dentro do próprio núcleo bolsonarista.
Michelle elevou esse conflito a outro patamar ao publicar ontem, 24 de junho, um vídeo direcionado especialmente às mulheres e ao eleitorado cearense.
Além de defender o crescimento da participação feminina no PL e reafirmar seu apoio a Priscila Costa para uma das vagas ao Senado, ela questionou publicamente a escolha de Alcides Fernandes: “Se o André queria agradar o Ciro Gomes, por que ele não ofereceu a vaga do seu próprio pai? Será que ele acha que retirar a vaga de uma mulher seria mais justo e fácil?”.
Também voltou a criticar o ex-governador, reproduzindo declarações antigas e associando sua aproximação com setores do PL a um projeto de poder, e não a uma convergência de ideias. A fala reforça que o conflito já não é apenas entre partidos, mas entre lideranças que disputam a condução da própria direita brasileira.
Nesse contexto, Ciro Gomes ocupa uma posição particularmente delicada. Depois de anos fazendo críticas duras ao bolsonarismo, passou a receber apoio de parte do PL cearense, enquanto continua sendo rejeitado por Michelle, Girão e outros setores conservadores.
Girão resumiu essa contradição ao afirmar que a relação entre Ciro e Flávio Bolsonaro é “água e óleo”. O próprio Ciro fez um mea culpa ao comentar o episódio, tentando minimizar o desgaste e sugerindo que Flávio não precisaria nem desejaria seu apoio. Essa declaração acabou produzindo outro efeito, fortalecendo a percepção de que sua aproximação com figuras como Aécio Neves e parte da direita ocorre muito mais por conveniência eleitoral do que por afinidade política, narrativa explorada por seus adversários.
O problema para a direita é que esse conflito acontece no pior momento possível. As últimas eleições presidenciais foram decididas por uma margem estreita de votos, e qualquer fragmentação tende a ter impacto relevante.
No Ceará, a disputa entre Girão, André Fernandes, Priscila Costa, Alcides Fernandes e Ciro Gomes expõe um campo político que ainda não conseguiu definir quem fala em nome do eleitor conservador. Nacionalmente, a divergência entre Michelle e Flávio Bolsonaro amplia essa percepção de desorganização.
Em vez de chegar às convenções discutindo propostas e ampliando alianças, a direita corre o risco de gastar energia tentando convencer o próprio eleitor de quem representa, de fato, o projeto que diz defender. É um desgaste que interessa diretamente aos adversários e que pode comprometer a construção de uma frente competitiva justamente quando o país se prepara para mais uma eleição apertada.




